sexta-feira, 16 de julho de 2010

4 - Amnésia de problemas.

– Quem é? – perguntou-me a voz no interfone. Era Paula, a mãe de Bruno.

– Aqui é o Guilherme, sra. Lins – respondi. – O Bruno está?

– Está, sim. Pode entrar, Guilherme.

A porta foi aberta e eu entrei. A frente da casa de Bruno lembrava as casas de praias do litoral que frequentei em várias férias com a minha família, com grama verde baixa no quintal e algumas pedras em formato de quadrado indicando o caminho à porta de entrada. Ao lado, havia um minicampo de futebol e uma piscina, e ao fundo, uma edícula com um dormitório e um banheiro. Eu definitivamente não hesitaria em morar naquela casa.

– Ele está no quarto – disse-me Paula assim que entrei na casa. Era uma mulher que aparentava ter menos de trinta anos – ela tinha quarenta e um. – Pode ir até lá.

– Tudo bem – respondi. – Obrigado.

Subi as escadas e bati à porta do segundo quarto do lado direito do corredor.

– Olha só quem resolveu aparecer! – disse Bruno. Estava como sempre o encontrava quando ia à casa dele: sentado em frente ao computador, latas de refrigerantes e um prato com restos de comida cobrindo a mesa. E, pelo visto, ele definitivamente adotara o visual não-faço-a-barba-há-três-dias.

– Marina foi ajudar na preparação da festa de uma prima da Thaís. Então resolvi passar por aqui e encher o seu saco.

– Eu já estou com o meu saco cheio aqui. Há horas estou fazendo o download de uns episódios de um seriado. Skins. Conhece?

– Acho que já ouvi falar.

– É bem legal. Fala sobre um grupo de amigos em Bristol, na Inglaterra. Sexo, drogas, festas... Essas coisas. Depois eu lhe mostrarei o episódio piloto.

– Tudo bem.

Ficamos em silêncio por um tempo. Bruno voltou a usar o computador e eu me sentei na cama.

Havia vários pôsteres de bandas e filmes pregados na parede. Eu conseguia ver ali cartazes das bandas Franz Ferdinand, The Smiths, Sonic Youth e de filmes como Donnie Darko e Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet.

– E então – disse Bruno –, como andam as coisas entre você e Marina?

– Ah, legais – respondi. – É ótimo estar com ela. Andar por aí, conversar, rir... essas coisas.

– Hum, me parece um tanto monótono, não acha?

Ele tem razão?

A minha relação com Marina não passava de ótimas caminhadas, conversas, saídas, trocas de beijos... Era basicamente isso.

Mas eu me sinto bem, não me sinto? E Marina também. Pelo menos é o que aparenta.

– Talvez – disse.

– “Talvez”? É claro que é. Vocês estão no início da relação, por isso não percebem. Tudo ainda são flores para vocês dois. Mas isso vai acabar com o tempo, vai se desgastar. Não percebe que nada mudou entre vocês? Estão do mesmo jeito como quando eram apenas amigos.

– Você acha? – perguntei.

Era impressionante como eu ainda não me havia me acostumado aos diálogos bastante honestos de Bruno. Ele era uma espécie de otimismo ambulante.

– Não digo que vocês não foram feitos um para o outro. Não. Vocês se gostam, se amam. Está estampado na testa dos dois. Vocês se merecem. E é legal ver isso. Mas... veja, eu não quero ficar dando palpites sobre a relação dos outros. Só estou dando a minha opinião. Mas a minha pergunta é: você está feliz?

É claro que estou.

Quanto a isso eu não tinha dúvidas. Marina me deixava feliz. Ela provocava em mim uma espécie de... amnésia de problemas, digamos. O chão poderia se abrir, a escuridão poderia envolver o mundo, mas, contanto que Marina estivesse sorrindo para mim, eu não me importaria com o que diabos estivesse acontecendo. Eu me sentia... Para falar a verdade, não sei bem exatamente o que eu sentia. Era uma confusão de sentimentos. De bons sentimentos.

– Completamente – respondi. – Eu sei que não fazemos nada fora do comum, mas, convenhamos, o que há para se fazer nesta cidade?

Bruno assentiu. Não dava para negar o fato de morarmos numa cidade que deixava o fim do mundo com cara de metrópole. Nós tínhamos sorte em haver, pelo menos, uma conexão decente de internet. Não havia shoppings, cinemas, trânsito... não havia sequer edifícios – a casa do prefeito era a única que tinha três andares. Mas, apesar disso, havia a vantagem de não se enlouquecer com o caos das grandes cidades, o barulho, a frieza das pessoas...

– Marina vai viajar com a família daqui a duas semanas – continuei. – Perguntei se eu podia ir com eles. Ela disse que, por ela, eu poderia ir. Mas o problema são os pais.

– Bem, vocês estão namorando a quase um mês – disse Bruno. – É claro que os pais dela não iriam querer que o cara que põe a língua dentro da boca de sua linda filha tivesse a oportunidade de viajar com ela. Eles provavelmente ainda não confiam totalmente em você.

– Tudo bem, já era – disse. – Ah, lembrei de uma coisa. Sabe a prima da Thaís, a Viviane?

– Sei, o que há com ela?

– O aniversário dela está chegando e a Thaís está planejando uma festa surpresa. A Marina foi à casa da Thaís para decidirem o que deve ou não ter na comemoração. Então, queria saber se você está a fim de ir à festa. A Marina não vai e a Thaís me pediu para que eu fosse, sabe como é. Mas o problema é que eu mal conheço a Viviane.

Há mais ou menos seis meses, Viviane estava num programa de intercâmbio no Canadá. Antes disso, o que eu sabia sobre ela era que estudava em um colégio diferente de onde os meus amigos e eu estudávamos. Eu a vira em poucas ocasiões, como nos aniversários de Thaís. Mas não havia conseguido memorizar o seu rosto na minha mente. Portanto, digamos que eu sequer a conhecesse.

– Muitas gatinhas marcarão presença? – perguntou Bruno.

– Se as amigas da Viviane seguirem a linha das amigas da Thaís, pode apostar que sim. – De fato, a maioria das colegas dela provocava uma certa sensação em nós, homens. Mas acho melhor não continuar com esse assunto.

– Então eu aceito a honra de acompanhar o meu velho amigo apaixonado-barra-encoleirado. Com a minha presença, a festa se tornará uma verdadeira Skins party.

– Beleza, idiota, seja lá o que isso queira dizer. Só, por favor, não beba demais. O meu pai ainda reclama do cheiro do seu vômito no nosso carro. E adivinhe quem que é obrigado a limpar a sujeira? – Bruno começou a rir. – Sim... Eu.

5 comentários:

  1. Adorei isso de SKINS e DONNIE DARKO na história kkkkkkkkkkkkkkkkkkk capítulo foi breve, comparado aos outros, porém, bem engraçado. Gostei mesmo! :D

    :*

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  2. concordo com a maria... o capitulo esta pequeno comparado as demais... só q como dizem, "tamanho n é documento", possui a mesma qualidade... achei muito interessante, parabéns arthur... agora quero o 5... cadê? ¬¬

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  3. Gostei arthur
    toda vez que leio um capitulo eu me deprimo,
    pq a merda do meu livro é MUITO mal escrito, aoskakos
    achei esse capitulo meio parado, mas sempre tem um capitulo assim nos livros, mesmo assim ele ficou bom e seu jeito de escrever melhor ainda

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  4. booa Arthur, cada vez mais gosto de ler o que tu escreve *-*. Skins *-*, e Sweeney Todd kkk. Homi, escreve maaais >.<.

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  5. Oi, Arthur! Bom, apesar de eu estar um pouco atrasada para comentar dessa vez, creio que não preciso dizer que sua história continua boa. Você escreve bem, isso é fato. Não é difícil de se prender à sua narração, e por causa disso os capítulos parecem ser tão breves...
    Acredito que você esteja guardando grandes acontecimentos para essa história, e eu mal posso esperar para ler. Tente postar com mais frequência! :)

    Ah, eu ouço falar bastante de Skins, mas ainda não assisti. Acho que vou começar a baixar, não gosto de ficar por fora do assunto. HAUIAHIAUH

    Vi que você trocou o logotipo do blog, ficou bonito. Melhor que o outro.

    E é isso.
    Beijos, e continue escrevendo! :*

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