sábado, 17 de abril de 2010

3 - Como se fizesse parte da minha vida.

Não importava se eu estava de olhos abertos ou fechados. Só o que havia à minha frente era escuridão. Eu não conseguia enxergar sequer a palma da minha mão se a colocasse diante do meu rosto.

Onde estou?

Comecei a tatear as sombras a fim de encontrar alguma coisa sólida – uma parede, quem sabe – pela qual eu pudesse me guiar. Não tinha noção de quanto tempo fiquei procurando; talvez alguns minutos. Não sei o motivo, mas eu sentia que estava em um corredor.

Repentinamente senti uma lufada de vento gélido percorrer as minhas costas. Os pelos da minha nunca se eriçaram. Eu me virei e vi um pequeno círculo luminoso, como se o feixe de luz de uma lanterna estivesse apontado em minha direção. Movimentava-se de um lado a outro como um pêndulo, oscilando na escuridão infinita. Observei-o por um longo tempo até que percebi que seu tamanho ficava cada vez maior. Ou talvez não estivesse aumentando de tamanho.

Definitivamente não. A estranha luz branca vinha em minha direção.

Alguma coisa dentro de mim me dizia para correr. Instintivamente obriguei as minhas pernas a trabalharem a toda velocidade. Apesar disso, a luz continuava a se aproximar, como se eu ainda estivesse parado. Então percebi que eu não saía do lugar. Mesmo me esforçando para correr, eu não me movia um milímetro.

A luz se aproximava cada vez mais rápido. Eu estava começando a suar, meus pulmões queimavam. Não sabia quanto tempo mais minhas pernas aguentariam.

Uma imensa forma retangular se materializou à minha frente. Um segundo antes ela não estava ali.

Uma porta!

Ainda correndo, estendi a mão para girar a maçaneta. Mas assim que cheguei perto o bastante, a porta simplesmente se abriu. E assim que a atravessei, ela se fechou, como para se impor entre mim e a assustadora luz.

Olhei à minha volta. Enfim podia ver alguma coisa – o chão de cimento, o céu negro banhado com tons alaranjados no horizonte, os prédios... Os prédios? Dei alguns passos até estar próximo do que parecia ser um parapeito e vi metros e metros – talvez quilômetros – de altura. Eu estava no telhado de um edifício. E não estava na minha cidade.

Como vim parar aqui?

Um barulho me fez saltar. Olhei por sobre o ombro. O som originava da porta por onde eu escapara da luz.

Então a porta se abriu com um estrondo. Lá estava ela. A terrível e incansável luz. Em outra situação, eu estaria rindo disso. Por que eu estava com medo de uma luz?

Eu não tinha para onde ir. Pensei em pular, mas a queda seria grande demais e sem dúvida meus ossos se partiriam em zilhões de pedaços menores do que o átomo.

Decidi que ficaria onde estava, embora o meu cérebro continuasse ordenando para que eu mantivesse pelo menos mil quilômetros de distância da luminosa bola flutuante. Afinal de contas, o que de tão grave ela poderia fazer comigo? Era apenas luz.

Ela se aproximava a uma grande velocidade, cegando os meus olhos. Meu coração batia freneticamente, a adrenalina percorrendo o meu corpo, enrijecendo todos os músculos.

Fechei os olhos. A luz se chocou contra mim e tudo ficou claro. Literalmente.

Imediatamente, senti-me como se estivesse num carrossel. Talvez fosse só eu ou talvez fosse o mundo que estava rodopiando à minha volta. Cada vez mais e mais rápido, como se eu estivesse numa centrífuga. E por incrível que pode parecer, eu não me sentia nem um pouco enjoado. Era como se aquilo fizesse parte da minha vida. Fizesse parte de mim.

E, da mesma maneira como começou, tudo parou de repente. O carrossel só durara uns dois, talvez três segundos.

Abri os olhos. O clarão da esfera se fora. Eu não estava mais no telhado. Não havia prédios estendendo-se na linha do horizonte. Não havia nada à minha volta. O silêncio era absoluto. A escuridão retornara. Eu não conseguia enxergar sequer a palma da minha mão se a colocasse diante do meu rosto.

Onde estou? De novo?


Acordei com uma pancada. Eu estava caído no chão frio ao lado da minha cama. Consultei o meu relógio, que estava na cabeceira. Ainda eram três da manhã de quatro de janeiro. Resolvi que deveria voltar a dormir.


Já havia passado do meio-dia quando me levantei. Fui direto para o banheiro para tomar um banho. Eu ia me encontrar com Marina dali a uma hora.

Quando cheguei à praça central da cidade, havia pessoas retirando os enfeites de Natal que decoraram o local durante as festas de fim de ano. Marina estava sentada no banco de sempre. O segundo à esquerda do coreto.

– Oi, lindinho! – disse ela.

Eu ergui a mão.

– Você sabe que isso é brega. Agora venha aqui.

Ela sorriu e eu a puxei para mais perto. Nossos lábios se encontraram e o tempo parecia ter parado. Como você sabe, descrever beijos não é o meu forte. Mas imagine que de repente todos os momentos mais felizes da sua vida passem como um filme na sua mente e que todos os problemas tenham ido fazer uma excursão no lugar mais distante do universo. Era assim que eu me sentia cada vez que beijava Marina.

– O que você fez hoje? – perguntei.

– Fui visitar uma tia. Há anos eu não a via. Na verdade, a minha mãe me obrigou a ir. Não gosto de visitar parentes que não vejo há eras. Eles sempre começam com aquele papo chato de "olha como você cresceu" ou "você está mais gordinha" ou "eu me lembro de quando trocava suas fraldas" ou "você deve estar cheia de garotos atrás de você" ou...

Bastava fazer a pergunta certa e Marina começaria a falar sem parar. Isso era bom. Quando ela me perguntava como foi o meu dia, eu respondia com frases curtas. E ela detestava isso. Ela continuava insistindo, fazendo mais e mais perguntas. Então era só eu começar da maneira correta, que a vida encontraria um meio de seguir sozinha.

–... eu não aguentei aquelas conversas sobre como o calor está de matar e pedi à minha mãe para voltar para casa.

– Verdade – disse eu. – Exageram bastante quando falam de aquecimento global. É uma paranoia.

– Pois é. – Então ficamos calados por vários minutos. Não era um silêncio constrangedor. Ambos gostávamos de andar de mãos dadas, em sem falar absolutamente nada. – E você, o que fez hoje?

– Ah, nada de mais – disse eu, rápida e friamente. Mas sabia que ela diria que não era nada de mais e que queria saber a verdade. Então me apressei e continuei: – Nem tive tempo de fazer coisa alguma. Acordei bem tarde.

– Onde você passou a noite? – disse Marina, as mãos na cintura, como se desconfiasse de algo.

– Calma – respondi rindo. – Eu só acordei no meio da noite. Caí da cama.

– Sonhou com alguma coisa?

Contei-lhe o meu sonho. Fiquei surpreso por não me lembrar de muita coisa no momento. Só o que recordava era a constante sensação de
déjà vu.

– Eu já tive muitos sonhos assim – disse Marina. – Com impressões de
déjà vu e até premonições.

– Premonições? – perguntei.

Ela só pode estar brincando.

– Sim – disse, franzindo as sobrancelhas. – Não acredita em premonições?

– Acredito em coincidências. Zilhões de eventos acontecem a bilhões de pessoas a todo instante. É inevitável que coisas surpreendentes aconteçam de vez em quando.

– Mas você não acha que talvez haja algo por trás disso? Como se as nossas mentes estivessem interligadas e, de vez em quando, resolvessem conspirar contra ou a nosso favor?

Eu não gostava muito de ter essas conversas cabeludas. Era sempre a mesma coisa: discutíamos e não chegávamos a lugar algum. Mas eu não podia parar agora ou ela acharia que os meus argumentos haviam se esgotado e que era ela quem tinha a razão.

– Acho que é como jogar um dado para o alto e torcer para que, por exemplo, a face do cinco fique virada para cima. Você tem seis probabilidades diferentes. Pode sair um cinco, assim como pode sair qualquer outro número do dado. Mas isso é um tema muito complexo e não dá para chegar a um consenso. Então é melhor parar por aqui.

– Tudo bem. – disse ela.

Venci.

Ficamos novamente em silêncio por um bom tempo. Caminhamos pela praça, até que resolvemos nos sentar num dos bancos. Ela preferiu se deitar, a cabeça apoiada em minha perna direita. Aquilo me deixava nervoso.

– Thaís me ligou – disse Marina.

– O que ela falou?

– Ah, o de sempre. Ela quer passar as férias na capital. Ou pelo menos sair da cidade.

– Ela ainda insiste nisso? – Thaís era o tipo de garota da cidade grande. Odiava ter de ficar durante as férias na mesma cidade onde passara o ano. Eu a entendia. Realmente, devia ser muito chato não poder respirar novos ares, mudar a rotina, conhecer novos lugares, pessoas... Mas o problema era que, quando Thaís queria alguma coisa, ela não parava de falar nisso até conseguir.

– É a mesma conversa – disse Marina, e começou a imitar a voz de Thaís: – "Não aguento mais esta cidade. Vou enlouquecer se eu não sair daqui. Quero ver e conhecer novas pessoas. Não suporto mais olhar para os rostos feios e nojentos da população desta cidade."

Eu comecei a rir. Quando Marina imitava a voz de alguém, ela fazia uma expressão muito engraçada. Suas narinas inflavam, sua testa franzia, sua boca se retorcia, e ela balançava a cabeça de um lado a outro. Mesmo assim, ela continuava linda.

– Além disso – continuou Marina –, ela também disse que está planejando fazer uma festa para comemorar o aniversário de Viviane. – Viviane era uma prima de Thaís que havia retornado de uma viagem ao Canadá há algumas semanas. Eu ainda não a conhecia. Era a primeira vez que ela vinha à cidade.

– Quando será a festa? – perguntei.

– Thaís ainda não tem certeza, mas acha melhor fazê-la no sábado, dia dezesseis.

– É uma boa ideia – comentei.

– O problema é que vou viajar no dia anterior.

– Você vai viajar? – Eu já deveria estar acostumado a essas informações de última hora de Marina. – Para onde?

– Para a capital – respondeu ela. – Na verdade, o meu pai é quem precisa viajar. Ele tem uns negócios do banco para resolver lá. Então ele sugeriu que nós fôssemos com ele.

– Estou incluído nesse "nós"?

– Se depender dos meus pais, não. Mas de mim, sim.

– A sua decisão vale por duas.

– Então temos um empate.

– Portanto cabe a mim decidir se vou ou não com vocês.

– Sabe, você não existe!

Ela começou a rir à maneira de que eu mais gostava. Um largo sorriso se abriu, formando covinhas em suas bochechas. Pequenas rugas apareceram ao redor dos seus olhos, que quase se fecharam. E se aproximou, a sua boca tocando a minha.

– Então, Thaís vai com vocês nessa viagem? – perguntei.

– Claro que não – respondeu Marina. – Aliás, não comente sobre isso perto dela. Por isso eu não contei a você que iria viajar.

– Não confia em mim? – Eu adorava colocá-la contra a parede.

– Não se trata disso, Guiga. Claro que confio. É só que... Eu ia contar a você. Só não queria... cedo demais. Não iria deixar para avisar assim que eu entrasse no carro, você sabe disso. Mas eu não queria... Thaís... ela não podia... Ah, você sabe como ela é nessas viagens.

Eu estava rindo desde que perguntara se ela confiava em mim. Mas ela tinha razão. Thaís era mesmo insuportável nas viagens. Certa vez, num passeio escolar a uma cidade vizinha, ela não parou um instante de falar durante a excursão. Era impressionante a habilidade que ela tinha de encontrar o que falar sobre como seu cabelo parecia feno pela manhã.

– Tudo bem, eu entendo. De verdade.

– Obrigada. – Ela agradeceu e me beijou. – Mas como tudo tem consequências, eu terei que ajudá-la com os preparativos para a festa de Viviane.

– Isso não me parece ruim.

– E não é.

Não entendi.

– Entendi – menti. – Querem a minha ajuda?

Eu não era a melhor pessoa a quem pedir ajuda. Eu tinha boas intenções, queria ajudar, de verdade. Mas nada dava certo quando eu estava por perto. Se eu me envolvesse com os preparativos da festa surpresa de Viviane, muito provavelmente ela deixaria de ser surpresa.

– Se você estiver a fim de ajudar... – Marina começou a rir. Ela sabia muito bem que eu tinha carga positiva e desastres, carga negativa.

– Prefiro detonar alguma coisa na casa do Bruno.

– Não quer aproveitar e vir conhecer Viviane? – insistiu.

– Acho melhor deixar as apresentações para o dia da festa.

Novamente não falamos qualquer coisa por muito tempo. Tanto que Marina adormeceu em meu colo. Aquilo era estranho, conseguir dormir em meu colo. Mas era estranho de uma maneira... feliz.

Tirei o meu iPod do bolso e pus os fones em meus ouvidos. Deixei que
Heart Skipped A Beat, da banda The XX, tomasse de conta da minha mente.