segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

2 - Ela está chegando de viagem.

Eu conseguia reconhecer aquele som a qualquer distância. Heads Will Roll da banda Yeah Yeah Yeahs. Por um breve instante, imaginei que Thaís soubesse que eu estava chegando. Porque aquela era a minha música preferida.

– A que horas você quer que venhamos buscá-lo? – perguntou meu pai, assim que desci do carro.

– Eu ligo para vocês – respondi.

– Não demore muito. Lembre-se da festa na casa da sua tia Chiara – lembrou-me a minha mãe.

– Tudo bem. Vem, Marina. – Estendi a minha mão para ela.

Marina desceu e eu fechei a porta do carro. Meu pai acelerou e em poucos segundos o carro havia dobrado a esquina, desaparecendo na escuridão.

Marina e eu caminhamos até a entrada da casa de Thaís, o som da música fazendo nossos corpos tremer.

Nós entramos, as luzes ofuscando os nossos olhos.

Thaís geralmente exagerava na decoração de suas festas. Aliás, aquela não deveria ser exatamente uma festa. Era simplesmente uma reunião de amigos, na qual iríamos trocar presentes, ouvir música e jogar conversa fora.

O local parecia uma boate, com jogo de luzes e globos giratórios no teto. Havia algumas fotos nossas coladas em cartazes na parede. Definitivamente a decoração deste ano havia superado a do ano passado.

– GUIGA! MARI! – gritou Thaís. Não sabia se por causa do som ou porque ela estava realmente animada com a festa. Eu apostaria na segunda opção. – Vocês, enfim, chegaram. Todos já estão aqui.

– A decoração está... demais – disse eu.

– Eu sei, não ficou incrível?! – perguntou Thaís, como se estivesse cheia de orgulho de um filho que tirou a maior nota da turma.

De repente ela parou, como se tivesse notado algo incomum.

– Oh... meu... Deus! – exclamou ela, olhando para baixo. Percebi que seus olhos estavam voltados para a minha mão. Eu estava segurando a mão de Marina. – Vocês dois...
estão? Não acredito!

Marina estava prestes a começar a falar, quando Thaís pegou o seu braço, puxando-a para outro cômodo da casa.

– Isso é maravilhoso. Você
tem que me contar tudo! – disse ela a Marina, as duas desaparecendo do meu campo de visão.

– Guiga! – alguém me chamou.

Eu me virei, a fim de descobrir a origem daquela voz em meio às vibrações da música alta.

Era Bruno. Há meses eu não o via. Há quatro anos ele morava na capital e só voltava à cidade durante as férias. Dessa vez, pude notar alguma diferença nele. Estava maior, com um penteado diferente. Uma barba de três dias deixava-o com um ar mais velho.

Matheus estava sentado ao seu lado. Ele era o mais velho do nosso grupo, mas seu rosto de criança enganava a todos.

Caminhei até eles e me sentei numa cadeira.

Havia duas garrafas de bebidas alcoólicas na mesa.

Por que chamam de alcoólica uma bebida com apenas cinco por cento de álcool? Cinco por cento não é diversão.

– Você sabe que sua vida acabou, não sabe? – começou Matheus.

– É sempre bom ver você também, Matheus – disse eu.

– Então, você e Marina avançaram? – perguntou Bruno.

– Bem, resolvemos tentar.

– É isso mesmo o que você quer? – perguntou Matheus e tomou um gole de sua bebida. – Quer dizer, você não terá mais liberdade. Você está preso a ela. Você será um escravo dela. É sempre assim.

Eu apenas ri.

Matheus e Bruno haviam tido péssimas experiências com mulheres. Matheus namorara uma garota impertinente. Ela reclamava quando ele ligava todos os dias. Dizia que ele estava limitando sua vida. Ele resolveu parar de ligar. Ela? Reclamou que ele não lhe dava atenção. Bruno namorara uma garota “piriguete”. Ela adorava bailes funk e micaretas, ia a todo e qualquer show de pagode, sem contar com os seus inúmeros vídeos de “como ser uma cachorra danadinha” na internet.

Continuamos conversando. Sobre o que Bruno andara fazendo na capital, basquete e alguns filmes recém-lançados nos cinemas, até que as garotas reapareceram.

– Pessoal, está na hora dos presentes – anunciou Thaís, acompanhada por Marina e Amanda.


– Como é de costume todo ano – começou Thaís –, eu serei a primeira a presentear o meu amigo secreto.

A música havia cessado e as luzes foram acessas. Nós seis estávamos sentados em forma de círculo no chão da sala de estar.

Mesmo sabendo quem havia escolhido quem, nós ainda mantínhamos a parte da descrição do amigo secreto.

Thaís estava com as mãos atrás de seu corpo, provavelmente escondendo o seu embrulho. Ela começou a falar.

– O meu amigo secreto é alguém que está sempre ao meu lado quando mais preciso, ouve todas as minhas loucuras e sabe, acho, de todos os meus segredos. Uma dica:
How I Met Your Mother.

Amanda começou a rir. Aquela era uma de suas séries de TV favoritas. Ela se levantou e, de joelhos, foi até Thaís. As duas se abraçaram.

– Obrigada, gata – agradeceu Amanda.

– Ele é a sua cara – disse Thaís, se referindo ao presente.

Amanda voltou os seus olhos para o embrulho e começou a rasgar o plástico que o envolvia. Não consegui entender a sua expressão. Ela estava surpresa ou confusa?

Era a coleção em DVD da primeira temporada de
How I Met Your Mother.

– Como... como você... – Definitivamente ela estava surpresa
e confusa.

– Bem, tentei comprar através de sites brasileiros, mas não encontrei. Então importei – disse Thaís.

Amanda ficou boquiaberta.

– Eu... não... acredito! – gaguejou Amanda.

Ela avançou e pulou em Thaís, abraçando-a forte. Por um instante, pensei ter visto uma lágrima escorrer por sua bochecha.

– Você merece, amiga – disse Thaís.

– Era o que eu queria – disse Amanda, a voz começando a falhar. – Eu... não sei como agradecer!

– Eu sei – disse Thaís, tentando se livrar de um possível enforcamento. – Cale a boca, volte ao seu lugar e diga quem é o seu amigo secreto.

Amanda voltou ao seu lugar e pegou o seu presente.

– Bem – começou, tentando se recompor –, o meu amigo secreto é louco por artes marciais. É um grande fã do Iron Maiden, e, de uma maneira que não consigo explicar, leu e gostou de
Crepúsculo.

Todos começamos a rir. Até hoje não entendíamos como Matheus era fã de Iron Maiden e, ao mesmo tempo, gostava da série
Crepúsculo.

Pude ver que Matheus estava corado. Ele ficou de pé e deu abraço em Amanda, que lhe entregou o livro
A Arte da Guerra, do autor Sun Tzu.

– Valeu, Mandy – agradeceu. – Bem, o meu amigo secreto acabou de encontrar sua alma gêmea.

Instintivamente, todos olharam surpresos para mim. Até eu estava surpreso, apesar de sabermos que ele não havia me escolhido.

– Não, idiotas. É a Marina.

Matheus precisa aprender a dar dicas melhores e mais específicas.

Marina se levantou e recebeu o presente de Matheus. Era um boneco de pelúcia de vinte e sete centímetros do Homer Simpson. Marina adorava
Os Simpsons.

– Oh, que bonitinho, Matheus – disse Marina, os olhos cintilando. Ela pôs o boneco ao seu lado e apanhou o seu presente. – O meu amigo secreto tem um gosto musical que eu invejo. Beatles, Arctic Monkeys, The Killers, Bon Jovi, The Cranberries... A lista é infinita.

As maçãs do rosto de Bruno ganharam um tom avermelhado. Ele se levantou e recebeu o presente de Marina. Era um DVD de um show de Franz Ferdinand.

Ele agradeceu e prosseguiu com a brincadeira.

– Bem, usando as palavras do grande Matheus, o meu amigo secreto acabou de encontrar sua alma gêmea.

Só poderia ser eu. A menos que Thaís estivesse guardando algum segredo.

Eu me levantei e Bruno me entregou o presente. Trocamos um aperto de mão e voltei para o meu lugar.

– Obrigado.

Rasguei o embrulho que revestia o presente. Era um livro.
Ensaio Sobre A Cegueira, de José Saramago. Eu estava prestes a perguntar por que ele me dera aquilo. Ele sabia que eu não gostava de Saramago. Não gostava da maneira como ele escrevia seus textos.

– Você vai gostar. – Ele riu. Estava se aproveitando do momento, eu podia sentir.

– Pode apostar que irei. – Eu já tinha em mente o destino daquele livro.

Era a minha vez. Pensei em não fazer um discurso sobre o meu amigo secreto. Afinal de contas, eu era o último. Todos já sabiam que meu escolhido era a Thaís. Mas ela me encheria de perguntas do tipo “por que você pulou a parte da descrição?” ou “você não me considera sua amiga?” ou “o que eu fiz de errado para você?”. E provavelmente passaria uma eternidade sem falar comigo.

– O meu amigo secreto é uma pessoa que fala demais, é animada ao extremo e não consegue se controlar.

A boca de Thaís estava tão aberta que por um instante achei que ela realmente chegaria ao chão. Era melhor eu me apressar ou ela se transformaria numa pantera e dilaceraria todo o meu corpo, expondo todos os meus órgãos.

– Apesar disso, tem um bom coração e é a única que consegue entender e ajudar a todos nós. Ela está lá sempre que precisamos. É um ótimo ombro amigo.

Pude ver os seus olhos se encherem de água, brilhando como duas estrelas em uma noite de céu limpo.

– Isso foi tão... – Ela não terminou a frase. Estava mesmo chorando. Avançou e me abraçou forte. Eu retribuí. Ela retribuiu mais forte ainda.
Tudo bem, isso precisa parar agora, pensei. Eu estava ficando sem ar, não conseguia falar. Poderia jurar ter ouvido o quebrar das minhas costelas. Consegui fazer um gesto de socorro para Marina, que estava ao meu lado.

– Thaís – disse ela, pondo as mãos em seus ombros. – Já chega. Venha.

Enfim, estava livre.

Nossa, eu... exagerei?

– Desculpe – disse Thaís, enxugando o rosto. – Mas aquilo foi tão... lindo. Eu estou sem palavras.

– Tudo bem. Ainda bem que gostou. E aqui está o seu presente.

Ela pegou o pacote e rasgou o plástico. Mais um livro.

O Símbolo Perdido? – disse ela. – Nossa, era o que eu queria.

Eu podia ver que não era exatamente aquilo o que ela queria. Talvez ela desejasse ter ganho um livro que narrava as fofocas da vida da elite nova-iorquina. Mas, eu pensei, quem sabe ela não gostaria de ler algo diferente.


– Eu me diverti muito, amiga – disse Marina.

Thaís agradeceu com um abraço, enquanto nos acompanhava até a porta. Todos os outros já haviam deixado a casa, enquanto eu, Marina e Thaís arrumávamos a bagunça.

– Onde você vai passar o Natal? – perguntei. Os pais dela eram médicos e estavam de plantão naquele dia. Talvez ela pudesse ficar com a gente na casa da tia Chiara.

– Vou à casa do meu tio Marcos. Na verdade, eu já devia estar lá. Estou atrasada.

– Como assim, atrasada? – Consultei o meu relógio de pulso. Ainda era pouco mais de dez da noite.

– Nós vamos ao aeroporto. A filha dele está chegando de viagem. Ela estava no Canadá desde julho. Intercâmbio.

– Ah. Bianca? – arriscou Marina.

– Não. Viviane.

Naquela hora, eu não dera muita atenção ao nome da prima de Thaís. Pensava que sua chegada à cidade significaria para Marina horas discutindo que roupa usar na festa de sexta-feira à noite. Mas eu jamais teria imaginado que Viviane se tornaria alguém tão importante na minha vida a ponto de me deixar dividido entre duas pessoas que eu amava e ter de deixar uma delas morrer.