sexta-feira, 16 de julho de 2010

4 - Amnésia de problemas.

– Quem é? – perguntou-me a voz no interfone. Era Paula, a mãe de Bruno.

– Aqui é o Guilherme, sra. Lins – respondi. – O Bruno está?

– Está, sim. Pode entrar, Guilherme.

A porta foi aberta e eu entrei. A frente da casa de Bruno lembrava as casas de praias do litoral que frequentei em várias férias com a minha família, com grama verde baixa no quintal e algumas pedras em formato de quadrado indicando o caminho à porta de entrada. Ao lado, havia um minicampo de futebol e uma piscina, e ao fundo, uma edícula com um dormitório e um banheiro. Eu definitivamente não hesitaria em morar naquela casa.

– Ele está no quarto – disse-me Paula assim que entrei na casa. Era uma mulher que aparentava ter menos de trinta anos – ela tinha quarenta e um. – Pode ir até lá.

– Tudo bem – respondi. – Obrigado.

Subi as escadas e bati à porta do segundo quarto do lado direito do corredor.

– Olha só quem resolveu aparecer! – disse Bruno. Estava como sempre o encontrava quando ia à casa dele: sentado em frente ao computador, latas de refrigerantes e um prato com restos de comida cobrindo a mesa. E, pelo visto, ele definitivamente adotara o visual não-faço-a-barba-há-três-dias.

– Marina foi ajudar na preparação da festa de uma prima da Thaís. Então resolvi passar por aqui e encher o seu saco.

– Eu já estou com o meu saco cheio aqui. Há horas estou fazendo o download de uns episódios de um seriado. Skins. Conhece?

– Acho que já ouvi falar.

– É bem legal. Fala sobre um grupo de amigos em Bristol, na Inglaterra. Sexo, drogas, festas... Essas coisas. Depois eu lhe mostrarei o episódio piloto.

– Tudo bem.

Ficamos em silêncio por um tempo. Bruno voltou a usar o computador e eu me sentei na cama.

Havia vários pôsteres de bandas e filmes pregados na parede. Eu conseguia ver ali cartazes das bandas Franz Ferdinand, The Smiths, Sonic Youth e de filmes como Donnie Darko e Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet.

– E então – disse Bruno –, como andam as coisas entre você e Marina?

– Ah, legais – respondi. – É ótimo estar com ela. Andar por aí, conversar, rir... essas coisas.

– Hum, me parece um tanto monótono, não acha?

Ele tem razão?

A minha relação com Marina não passava de ótimas caminhadas, conversas, saídas, trocas de beijos... Era basicamente isso.

Mas eu me sinto bem, não me sinto? E Marina também. Pelo menos é o que aparenta.

– Talvez – disse.

– “Talvez”? É claro que é. Vocês estão no início da relação, por isso não percebem. Tudo ainda são flores para vocês dois. Mas isso vai acabar com o tempo, vai se desgastar. Não percebe que nada mudou entre vocês? Estão do mesmo jeito como quando eram apenas amigos.

– Você acha? – perguntei.

Era impressionante como eu ainda não me havia me acostumado aos diálogos bastante honestos de Bruno. Ele era uma espécie de otimismo ambulante.

– Não digo que vocês não foram feitos um para o outro. Não. Vocês se gostam, se amam. Está estampado na testa dos dois. Vocês se merecem. E é legal ver isso. Mas... veja, eu não quero ficar dando palpites sobre a relação dos outros. Só estou dando a minha opinião. Mas a minha pergunta é: você está feliz?

É claro que estou.

Quanto a isso eu não tinha dúvidas. Marina me deixava feliz. Ela provocava em mim uma espécie de... amnésia de problemas, digamos. O chão poderia se abrir, a escuridão poderia envolver o mundo, mas, contanto que Marina estivesse sorrindo para mim, eu não me importaria com o que diabos estivesse acontecendo. Eu me sentia... Para falar a verdade, não sei bem exatamente o que eu sentia. Era uma confusão de sentimentos. De bons sentimentos.

– Completamente – respondi. – Eu sei que não fazemos nada fora do comum, mas, convenhamos, o que há para se fazer nesta cidade?

Bruno assentiu. Não dava para negar o fato de morarmos numa cidade que deixava o fim do mundo com cara de metrópole. Nós tínhamos sorte em haver, pelo menos, uma conexão decente de internet. Não havia shoppings, cinemas, trânsito... não havia sequer edifícios – a casa do prefeito era a única que tinha três andares. Mas, apesar disso, havia a vantagem de não se enlouquecer com o caos das grandes cidades, o barulho, a frieza das pessoas...

– Marina vai viajar com a família daqui a duas semanas – continuei. – Perguntei se eu podia ir com eles. Ela disse que, por ela, eu poderia ir. Mas o problema são os pais.

– Bem, vocês estão namorando a quase um mês – disse Bruno. – É claro que os pais dela não iriam querer que o cara que põe a língua dentro da boca de sua linda filha tivesse a oportunidade de viajar com ela. Eles provavelmente ainda não confiam totalmente em você.

– Tudo bem, já era – disse. – Ah, lembrei de uma coisa. Sabe a prima da Thaís, a Viviane?

– Sei, o que há com ela?

– O aniversário dela está chegando e a Thaís está planejando uma festa surpresa. A Marina foi à casa da Thaís para decidirem o que deve ou não ter na comemoração. Então, queria saber se você está a fim de ir à festa. A Marina não vai e a Thaís me pediu para que eu fosse, sabe como é. Mas o problema é que eu mal conheço a Viviane.

Há mais ou menos seis meses, Viviane estava num programa de intercâmbio no Canadá. Antes disso, o que eu sabia sobre ela era que estudava em um colégio diferente de onde os meus amigos e eu estudávamos. Eu a vira em poucas ocasiões, como nos aniversários de Thaís. Mas não havia conseguido memorizar o seu rosto na minha mente. Portanto, digamos que eu sequer a conhecesse.

– Muitas gatinhas marcarão presença? – perguntou Bruno.

– Se as amigas da Viviane seguirem a linha das amigas da Thaís, pode apostar que sim. – De fato, a maioria das colegas dela provocava uma certa sensação em nós, homens. Mas acho melhor não continuar com esse assunto.

– Então eu aceito a honra de acompanhar o meu velho amigo apaixonado-barra-encoleirado. Com a minha presença, a festa se tornará uma verdadeira Skins party.

– Beleza, idiota, seja lá o que isso queira dizer. Só, por favor, não beba demais. O meu pai ainda reclama do cheiro do seu vômito no nosso carro. E adivinhe quem que é obrigado a limpar a sujeira? – Bruno começou a rir. – Sim... Eu.

sábado, 17 de abril de 2010

3 - Como se fizesse parte da minha vida.

Não importava se eu estava de olhos abertos ou fechados. Só o que havia à minha frente era escuridão. Eu não conseguia enxergar sequer a palma da minha mão se a colocasse diante do meu rosto.

Onde estou?

Comecei a tatear as sombras a fim de encontrar alguma coisa sólida – uma parede, quem sabe – pela qual eu pudesse me guiar. Não tinha noção de quanto tempo fiquei procurando; talvez alguns minutos. Não sei o motivo, mas eu sentia que estava em um corredor.

Repentinamente senti uma lufada de vento gélido percorrer as minhas costas. Os pelos da minha nunca se eriçaram. Eu me virei e vi um pequeno círculo luminoso, como se o feixe de luz de uma lanterna estivesse apontado em minha direção. Movimentava-se de um lado a outro como um pêndulo, oscilando na escuridão infinita. Observei-o por um longo tempo até que percebi que seu tamanho ficava cada vez maior. Ou talvez não estivesse aumentando de tamanho.

Definitivamente não. A estranha luz branca vinha em minha direção.

Alguma coisa dentro de mim me dizia para correr. Instintivamente obriguei as minhas pernas a trabalharem a toda velocidade. Apesar disso, a luz continuava a se aproximar, como se eu ainda estivesse parado. Então percebi que eu não saía do lugar. Mesmo me esforçando para correr, eu não me movia um milímetro.

A luz se aproximava cada vez mais rápido. Eu estava começando a suar, meus pulmões queimavam. Não sabia quanto tempo mais minhas pernas aguentariam.

Uma imensa forma retangular se materializou à minha frente. Um segundo antes ela não estava ali.

Uma porta!

Ainda correndo, estendi a mão para girar a maçaneta. Mas assim que cheguei perto o bastante, a porta simplesmente se abriu. E assim que a atravessei, ela se fechou, como para se impor entre mim e a assustadora luz.

Olhei à minha volta. Enfim podia ver alguma coisa – o chão de cimento, o céu negro banhado com tons alaranjados no horizonte, os prédios... Os prédios? Dei alguns passos até estar próximo do que parecia ser um parapeito e vi metros e metros – talvez quilômetros – de altura. Eu estava no telhado de um edifício. E não estava na minha cidade.

Como vim parar aqui?

Um barulho me fez saltar. Olhei por sobre o ombro. O som originava da porta por onde eu escapara da luz.

Então a porta se abriu com um estrondo. Lá estava ela. A terrível e incansável luz. Em outra situação, eu estaria rindo disso. Por que eu estava com medo de uma luz?

Eu não tinha para onde ir. Pensei em pular, mas a queda seria grande demais e sem dúvida meus ossos se partiriam em zilhões de pedaços menores do que o átomo.

Decidi que ficaria onde estava, embora o meu cérebro continuasse ordenando para que eu mantivesse pelo menos mil quilômetros de distância da luminosa bola flutuante. Afinal de contas, o que de tão grave ela poderia fazer comigo? Era apenas luz.

Ela se aproximava a uma grande velocidade, cegando os meus olhos. Meu coração batia freneticamente, a adrenalina percorrendo o meu corpo, enrijecendo todos os músculos.

Fechei os olhos. A luz se chocou contra mim e tudo ficou claro. Literalmente.

Imediatamente, senti-me como se estivesse num carrossel. Talvez fosse só eu ou talvez fosse o mundo que estava rodopiando à minha volta. Cada vez mais e mais rápido, como se eu estivesse numa centrífuga. E por incrível que pode parecer, eu não me sentia nem um pouco enjoado. Era como se aquilo fizesse parte da minha vida. Fizesse parte de mim.

E, da mesma maneira como começou, tudo parou de repente. O carrossel só durara uns dois, talvez três segundos.

Abri os olhos. O clarão da esfera se fora. Eu não estava mais no telhado. Não havia prédios estendendo-se na linha do horizonte. Não havia nada à minha volta. O silêncio era absoluto. A escuridão retornara. Eu não conseguia enxergar sequer a palma da minha mão se a colocasse diante do meu rosto.

Onde estou? De novo?


Acordei com uma pancada. Eu estava caído no chão frio ao lado da minha cama. Consultei o meu relógio, que estava na cabeceira. Ainda eram três da manhã de quatro de janeiro. Resolvi que deveria voltar a dormir.


Já havia passado do meio-dia quando me levantei. Fui direto para o banheiro para tomar um banho. Eu ia me encontrar com Marina dali a uma hora.

Quando cheguei à praça central da cidade, havia pessoas retirando os enfeites de Natal que decoraram o local durante as festas de fim de ano. Marina estava sentada no banco de sempre. O segundo à esquerda do coreto.

– Oi, lindinho! – disse ela.

Eu ergui a mão.

– Você sabe que isso é brega. Agora venha aqui.

Ela sorriu e eu a puxei para mais perto. Nossos lábios se encontraram e o tempo parecia ter parado. Como você sabe, descrever beijos não é o meu forte. Mas imagine que de repente todos os momentos mais felizes da sua vida passem como um filme na sua mente e que todos os problemas tenham ido fazer uma excursão no lugar mais distante do universo. Era assim que eu me sentia cada vez que beijava Marina.

– O que você fez hoje? – perguntei.

– Fui visitar uma tia. Há anos eu não a via. Na verdade, a minha mãe me obrigou a ir. Não gosto de visitar parentes que não vejo há eras. Eles sempre começam com aquele papo chato de "olha como você cresceu" ou "você está mais gordinha" ou "eu me lembro de quando trocava suas fraldas" ou "você deve estar cheia de garotos atrás de você" ou...

Bastava fazer a pergunta certa e Marina começaria a falar sem parar. Isso era bom. Quando ela me perguntava como foi o meu dia, eu respondia com frases curtas. E ela detestava isso. Ela continuava insistindo, fazendo mais e mais perguntas. Então era só eu começar da maneira correta, que a vida encontraria um meio de seguir sozinha.

–... eu não aguentei aquelas conversas sobre como o calor está de matar e pedi à minha mãe para voltar para casa.

– Verdade – disse eu. – Exageram bastante quando falam de aquecimento global. É uma paranoia.

– Pois é. – Então ficamos calados por vários minutos. Não era um silêncio constrangedor. Ambos gostávamos de andar de mãos dadas, em sem falar absolutamente nada. – E você, o que fez hoje?

– Ah, nada de mais – disse eu, rápida e friamente. Mas sabia que ela diria que não era nada de mais e que queria saber a verdade. Então me apressei e continuei: – Nem tive tempo de fazer coisa alguma. Acordei bem tarde.

– Onde você passou a noite? – disse Marina, as mãos na cintura, como se desconfiasse de algo.

– Calma – respondi rindo. – Eu só acordei no meio da noite. Caí da cama.

– Sonhou com alguma coisa?

Contei-lhe o meu sonho. Fiquei surpreso por não me lembrar de muita coisa no momento. Só o que recordava era a constante sensação de
déjà vu.

– Eu já tive muitos sonhos assim – disse Marina. – Com impressões de
déjà vu e até premonições.

– Premonições? – perguntei.

Ela só pode estar brincando.

– Sim – disse, franzindo as sobrancelhas. – Não acredita em premonições?

– Acredito em coincidências. Zilhões de eventos acontecem a bilhões de pessoas a todo instante. É inevitável que coisas surpreendentes aconteçam de vez em quando.

– Mas você não acha que talvez haja algo por trás disso? Como se as nossas mentes estivessem interligadas e, de vez em quando, resolvessem conspirar contra ou a nosso favor?

Eu não gostava muito de ter essas conversas cabeludas. Era sempre a mesma coisa: discutíamos e não chegávamos a lugar algum. Mas eu não podia parar agora ou ela acharia que os meus argumentos haviam se esgotado e que era ela quem tinha a razão.

– Acho que é como jogar um dado para o alto e torcer para que, por exemplo, a face do cinco fique virada para cima. Você tem seis probabilidades diferentes. Pode sair um cinco, assim como pode sair qualquer outro número do dado. Mas isso é um tema muito complexo e não dá para chegar a um consenso. Então é melhor parar por aqui.

– Tudo bem. – disse ela.

Venci.

Ficamos novamente em silêncio por um bom tempo. Caminhamos pela praça, até que resolvemos nos sentar num dos bancos. Ela preferiu se deitar, a cabeça apoiada em minha perna direita. Aquilo me deixava nervoso.

– Thaís me ligou – disse Marina.

– O que ela falou?

– Ah, o de sempre. Ela quer passar as férias na capital. Ou pelo menos sair da cidade.

– Ela ainda insiste nisso? – Thaís era o tipo de garota da cidade grande. Odiava ter de ficar durante as férias na mesma cidade onde passara o ano. Eu a entendia. Realmente, devia ser muito chato não poder respirar novos ares, mudar a rotina, conhecer novos lugares, pessoas... Mas o problema era que, quando Thaís queria alguma coisa, ela não parava de falar nisso até conseguir.

– É a mesma conversa – disse Marina, e começou a imitar a voz de Thaís: – "Não aguento mais esta cidade. Vou enlouquecer se eu não sair daqui. Quero ver e conhecer novas pessoas. Não suporto mais olhar para os rostos feios e nojentos da população desta cidade."

Eu comecei a rir. Quando Marina imitava a voz de alguém, ela fazia uma expressão muito engraçada. Suas narinas inflavam, sua testa franzia, sua boca se retorcia, e ela balançava a cabeça de um lado a outro. Mesmo assim, ela continuava linda.

– Além disso – continuou Marina –, ela também disse que está planejando fazer uma festa para comemorar o aniversário de Viviane. – Viviane era uma prima de Thaís que havia retornado de uma viagem ao Canadá há algumas semanas. Eu ainda não a conhecia. Era a primeira vez que ela vinha à cidade.

– Quando será a festa? – perguntei.

– Thaís ainda não tem certeza, mas acha melhor fazê-la no sábado, dia dezesseis.

– É uma boa ideia – comentei.

– O problema é que vou viajar no dia anterior.

– Você vai viajar? – Eu já deveria estar acostumado a essas informações de última hora de Marina. – Para onde?

– Para a capital – respondeu ela. – Na verdade, o meu pai é quem precisa viajar. Ele tem uns negócios do banco para resolver lá. Então ele sugeriu que nós fôssemos com ele.

– Estou incluído nesse "nós"?

– Se depender dos meus pais, não. Mas de mim, sim.

– A sua decisão vale por duas.

– Então temos um empate.

– Portanto cabe a mim decidir se vou ou não com vocês.

– Sabe, você não existe!

Ela começou a rir à maneira de que eu mais gostava. Um largo sorriso se abriu, formando covinhas em suas bochechas. Pequenas rugas apareceram ao redor dos seus olhos, que quase se fecharam. E se aproximou, a sua boca tocando a minha.

– Então, Thaís vai com vocês nessa viagem? – perguntei.

– Claro que não – respondeu Marina. – Aliás, não comente sobre isso perto dela. Por isso eu não contei a você que iria viajar.

– Não confia em mim? – Eu adorava colocá-la contra a parede.

– Não se trata disso, Guiga. Claro que confio. É só que... Eu ia contar a você. Só não queria... cedo demais. Não iria deixar para avisar assim que eu entrasse no carro, você sabe disso. Mas eu não queria... Thaís... ela não podia... Ah, você sabe como ela é nessas viagens.

Eu estava rindo desde que perguntara se ela confiava em mim. Mas ela tinha razão. Thaís era mesmo insuportável nas viagens. Certa vez, num passeio escolar a uma cidade vizinha, ela não parou um instante de falar durante a excursão. Era impressionante a habilidade que ela tinha de encontrar o que falar sobre como seu cabelo parecia feno pela manhã.

– Tudo bem, eu entendo. De verdade.

– Obrigada. – Ela agradeceu e me beijou. – Mas como tudo tem consequências, eu terei que ajudá-la com os preparativos para a festa de Viviane.

– Isso não me parece ruim.

– E não é.

Não entendi.

– Entendi – menti. – Querem a minha ajuda?

Eu não era a melhor pessoa a quem pedir ajuda. Eu tinha boas intenções, queria ajudar, de verdade. Mas nada dava certo quando eu estava por perto. Se eu me envolvesse com os preparativos da festa surpresa de Viviane, muito provavelmente ela deixaria de ser surpresa.

– Se você estiver a fim de ajudar... – Marina começou a rir. Ela sabia muito bem que eu tinha carga positiva e desastres, carga negativa.

– Prefiro detonar alguma coisa na casa do Bruno.

– Não quer aproveitar e vir conhecer Viviane? – insistiu.

– Acho melhor deixar as apresentações para o dia da festa.

Novamente não falamos qualquer coisa por muito tempo. Tanto que Marina adormeceu em meu colo. Aquilo era estranho, conseguir dormir em meu colo. Mas era estranho de uma maneira... feliz.

Tirei o meu iPod do bolso e pus os fones em meus ouvidos. Deixei que
Heart Skipped A Beat, da banda The XX, tomasse de conta da minha mente.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

2 - Ela está chegando de viagem.

Eu conseguia reconhecer aquele som a qualquer distância. Heads Will Roll da banda Yeah Yeah Yeahs. Por um breve instante, imaginei que Thaís soubesse que eu estava chegando. Porque aquela era a minha música preferida.

– A que horas você quer que venhamos buscá-lo? – perguntou meu pai, assim que desci do carro.

– Eu ligo para vocês – respondi.

– Não demore muito. Lembre-se da festa na casa da sua tia Chiara – lembrou-me a minha mãe.

– Tudo bem. Vem, Marina. – Estendi a minha mão para ela.

Marina desceu e eu fechei a porta do carro. Meu pai acelerou e em poucos segundos o carro havia dobrado a esquina, desaparecendo na escuridão.

Marina e eu caminhamos até a entrada da casa de Thaís, o som da música fazendo nossos corpos tremer.

Nós entramos, as luzes ofuscando os nossos olhos.

Thaís geralmente exagerava na decoração de suas festas. Aliás, aquela não deveria ser exatamente uma festa. Era simplesmente uma reunião de amigos, na qual iríamos trocar presentes, ouvir música e jogar conversa fora.

O local parecia uma boate, com jogo de luzes e globos giratórios no teto. Havia algumas fotos nossas coladas em cartazes na parede. Definitivamente a decoração deste ano havia superado a do ano passado.

– GUIGA! MARI! – gritou Thaís. Não sabia se por causa do som ou porque ela estava realmente animada com a festa. Eu apostaria na segunda opção. – Vocês, enfim, chegaram. Todos já estão aqui.

– A decoração está... demais – disse eu.

– Eu sei, não ficou incrível?! – perguntou Thaís, como se estivesse cheia de orgulho de um filho que tirou a maior nota da turma.

De repente ela parou, como se tivesse notado algo incomum.

– Oh... meu... Deus! – exclamou ela, olhando para baixo. Percebi que seus olhos estavam voltados para a minha mão. Eu estava segurando a mão de Marina. – Vocês dois...
estão? Não acredito!

Marina estava prestes a começar a falar, quando Thaís pegou o seu braço, puxando-a para outro cômodo da casa.

– Isso é maravilhoso. Você
tem que me contar tudo! – disse ela a Marina, as duas desaparecendo do meu campo de visão.

– Guiga! – alguém me chamou.

Eu me virei, a fim de descobrir a origem daquela voz em meio às vibrações da música alta.

Era Bruno. Há meses eu não o via. Há quatro anos ele morava na capital e só voltava à cidade durante as férias. Dessa vez, pude notar alguma diferença nele. Estava maior, com um penteado diferente. Uma barba de três dias deixava-o com um ar mais velho.

Matheus estava sentado ao seu lado. Ele era o mais velho do nosso grupo, mas seu rosto de criança enganava a todos.

Caminhei até eles e me sentei numa cadeira.

Havia duas garrafas de bebidas alcoólicas na mesa.

Por que chamam de alcoólica uma bebida com apenas cinco por cento de álcool? Cinco por cento não é diversão.

– Você sabe que sua vida acabou, não sabe? – começou Matheus.

– É sempre bom ver você também, Matheus – disse eu.

– Então, você e Marina avançaram? – perguntou Bruno.

– Bem, resolvemos tentar.

– É isso mesmo o que você quer? – perguntou Matheus e tomou um gole de sua bebida. – Quer dizer, você não terá mais liberdade. Você está preso a ela. Você será um escravo dela. É sempre assim.

Eu apenas ri.

Matheus e Bruno haviam tido péssimas experiências com mulheres. Matheus namorara uma garota impertinente. Ela reclamava quando ele ligava todos os dias. Dizia que ele estava limitando sua vida. Ele resolveu parar de ligar. Ela? Reclamou que ele não lhe dava atenção. Bruno namorara uma garota “piriguete”. Ela adorava bailes funk e micaretas, ia a todo e qualquer show de pagode, sem contar com os seus inúmeros vídeos de “como ser uma cachorra danadinha” na internet.

Continuamos conversando. Sobre o que Bruno andara fazendo na capital, basquete e alguns filmes recém-lançados nos cinemas, até que as garotas reapareceram.

– Pessoal, está na hora dos presentes – anunciou Thaís, acompanhada por Marina e Amanda.


– Como é de costume todo ano – começou Thaís –, eu serei a primeira a presentear o meu amigo secreto.

A música havia cessado e as luzes foram acessas. Nós seis estávamos sentados em forma de círculo no chão da sala de estar.

Mesmo sabendo quem havia escolhido quem, nós ainda mantínhamos a parte da descrição do amigo secreto.

Thaís estava com as mãos atrás de seu corpo, provavelmente escondendo o seu embrulho. Ela começou a falar.

– O meu amigo secreto é alguém que está sempre ao meu lado quando mais preciso, ouve todas as minhas loucuras e sabe, acho, de todos os meus segredos. Uma dica:
How I Met Your Mother.

Amanda começou a rir. Aquela era uma de suas séries de TV favoritas. Ela se levantou e, de joelhos, foi até Thaís. As duas se abraçaram.

– Obrigada, gata – agradeceu Amanda.

– Ele é a sua cara – disse Thaís, se referindo ao presente.

Amanda voltou os seus olhos para o embrulho e começou a rasgar o plástico que o envolvia. Não consegui entender a sua expressão. Ela estava surpresa ou confusa?

Era a coleção em DVD da primeira temporada de
How I Met Your Mother.

– Como... como você... – Definitivamente ela estava surpresa
e confusa.

– Bem, tentei comprar através de sites brasileiros, mas não encontrei. Então importei – disse Thaís.

Amanda ficou boquiaberta.

– Eu... não... acredito! – gaguejou Amanda.

Ela avançou e pulou em Thaís, abraçando-a forte. Por um instante, pensei ter visto uma lágrima escorrer por sua bochecha.

– Você merece, amiga – disse Thaís.

– Era o que eu queria – disse Amanda, a voz começando a falhar. – Eu... não sei como agradecer!

– Eu sei – disse Thaís, tentando se livrar de um possível enforcamento. – Cale a boca, volte ao seu lugar e diga quem é o seu amigo secreto.

Amanda voltou ao seu lugar e pegou o seu presente.

– Bem – começou, tentando se recompor –, o meu amigo secreto é louco por artes marciais. É um grande fã do Iron Maiden, e, de uma maneira que não consigo explicar, leu e gostou de
Crepúsculo.

Todos começamos a rir. Até hoje não entendíamos como Matheus era fã de Iron Maiden e, ao mesmo tempo, gostava da série
Crepúsculo.

Pude ver que Matheus estava corado. Ele ficou de pé e deu abraço em Amanda, que lhe entregou o livro
A Arte da Guerra, do autor Sun Tzu.

– Valeu, Mandy – agradeceu. – Bem, o meu amigo secreto acabou de encontrar sua alma gêmea.

Instintivamente, todos olharam surpresos para mim. Até eu estava surpreso, apesar de sabermos que ele não havia me escolhido.

– Não, idiotas. É a Marina.

Matheus precisa aprender a dar dicas melhores e mais específicas.

Marina se levantou e recebeu o presente de Matheus. Era um boneco de pelúcia de vinte e sete centímetros do Homer Simpson. Marina adorava
Os Simpsons.

– Oh, que bonitinho, Matheus – disse Marina, os olhos cintilando. Ela pôs o boneco ao seu lado e apanhou o seu presente. – O meu amigo secreto tem um gosto musical que eu invejo. Beatles, Arctic Monkeys, The Killers, Bon Jovi, The Cranberries... A lista é infinita.

As maçãs do rosto de Bruno ganharam um tom avermelhado. Ele se levantou e recebeu o presente de Marina. Era um DVD de um show de Franz Ferdinand.

Ele agradeceu e prosseguiu com a brincadeira.

– Bem, usando as palavras do grande Matheus, o meu amigo secreto acabou de encontrar sua alma gêmea.

Só poderia ser eu. A menos que Thaís estivesse guardando algum segredo.

Eu me levantei e Bruno me entregou o presente. Trocamos um aperto de mão e voltei para o meu lugar.

– Obrigado.

Rasguei o embrulho que revestia o presente. Era um livro.
Ensaio Sobre A Cegueira, de José Saramago. Eu estava prestes a perguntar por que ele me dera aquilo. Ele sabia que eu não gostava de Saramago. Não gostava da maneira como ele escrevia seus textos.

– Você vai gostar. – Ele riu. Estava se aproveitando do momento, eu podia sentir.

– Pode apostar que irei. – Eu já tinha em mente o destino daquele livro.

Era a minha vez. Pensei em não fazer um discurso sobre o meu amigo secreto. Afinal de contas, eu era o último. Todos já sabiam que meu escolhido era a Thaís. Mas ela me encheria de perguntas do tipo “por que você pulou a parte da descrição?” ou “você não me considera sua amiga?” ou “o que eu fiz de errado para você?”. E provavelmente passaria uma eternidade sem falar comigo.

– O meu amigo secreto é uma pessoa que fala demais, é animada ao extremo e não consegue se controlar.

A boca de Thaís estava tão aberta que por um instante achei que ela realmente chegaria ao chão. Era melhor eu me apressar ou ela se transformaria numa pantera e dilaceraria todo o meu corpo, expondo todos os meus órgãos.

– Apesar disso, tem um bom coração e é a única que consegue entender e ajudar a todos nós. Ela está lá sempre que precisamos. É um ótimo ombro amigo.

Pude ver os seus olhos se encherem de água, brilhando como duas estrelas em uma noite de céu limpo.

– Isso foi tão... – Ela não terminou a frase. Estava mesmo chorando. Avançou e me abraçou forte. Eu retribuí. Ela retribuiu mais forte ainda.
Tudo bem, isso precisa parar agora, pensei. Eu estava ficando sem ar, não conseguia falar. Poderia jurar ter ouvido o quebrar das minhas costelas. Consegui fazer um gesto de socorro para Marina, que estava ao meu lado.

– Thaís – disse ela, pondo as mãos em seus ombros. – Já chega. Venha.

Enfim, estava livre.

Nossa, eu... exagerei?

– Desculpe – disse Thaís, enxugando o rosto. – Mas aquilo foi tão... lindo. Eu estou sem palavras.

– Tudo bem. Ainda bem que gostou. E aqui está o seu presente.

Ela pegou o pacote e rasgou o plástico. Mais um livro.

O Símbolo Perdido? – disse ela. – Nossa, era o que eu queria.

Eu podia ver que não era exatamente aquilo o que ela queria. Talvez ela desejasse ter ganho um livro que narrava as fofocas da vida da elite nova-iorquina. Mas, eu pensei, quem sabe ela não gostaria de ler algo diferente.


– Eu me diverti muito, amiga – disse Marina.

Thaís agradeceu com um abraço, enquanto nos acompanhava até a porta. Todos os outros já haviam deixado a casa, enquanto eu, Marina e Thaís arrumávamos a bagunça.

– Onde você vai passar o Natal? – perguntei. Os pais dela eram médicos e estavam de plantão naquele dia. Talvez ela pudesse ficar com a gente na casa da tia Chiara.

– Vou à casa do meu tio Marcos. Na verdade, eu já devia estar lá. Estou atrasada.

– Como assim, atrasada? – Consultei o meu relógio de pulso. Ainda era pouco mais de dez da noite.

– Nós vamos ao aeroporto. A filha dele está chegando de viagem. Ela estava no Canadá desde julho. Intercâmbio.

– Ah. Bianca? – arriscou Marina.

– Não. Viviane.

Naquela hora, eu não dera muita atenção ao nome da prima de Thaís. Pensava que sua chegada à cidade significaria para Marina horas discutindo que roupa usar na festa de sexta-feira à noite. Mas eu jamais teria imaginado que Viviane se tornaria alguém tão importante na minha vida a ponto de me deixar dividido entre duas pessoas que eu amava e ter de deixar uma delas morrer.

sábado, 30 de janeiro de 2010

1- Oficialmente juntos.

Os raios de sol atravessavam a vidraça da janela do meu quarto e incidiam exatamente em meus olhos. Tentei não abri-los, mas fui derrotado pela luz alaranjada do amanhecer. Passaram-se quase cinco minutos até eu encontrar forças para me levantar e caminhar até a cozinha.

Desci a escada e vi uma árvore decorada com bolas espelhadas, minúsculas lâmpadas e uma estrela no topo encostada no canto da sala. Por um breve instante, esqueci-me de que dia era aquele.

É véspera de Natal.

Dentre todos os eventos do ano, o Natal e o Ano-Novo eram os únicos que conseguiam me deixar um pouco mais feliz do que o normal. Não que eu fosse uma pessoa infeliz, mas eu não sentia o espírito dos outros acontecimentos do ano.

Cheguei à cozinha e encontrei meus pais sentados à mesa.

– Oi, pai. Oi, mãe – eu disse, tirando a remela dos olhos e me sentando à mesa.

Havia o café da manhã de sempre: vitaminas ainda no liquidificador, alguns sanduíches, pães e frutas.

– Oi, Gui – responderam ao mesmo tempo. Eu não gostava muito desse apelido, muito menos de como os meus amigos me chamavam: Guiga. Mas não me importava mais, pois sabia que esses apelidos eram necessários, uma vez que “Guilherme” era um nome um tanto grande.

– Marina telefonou – disse-me o meu pai, ainda com um pedaço de pão na boca – Pediu para que você ligasse para ela assim que acordasse. – Ele deve ter percebido a minha cara de “será que algo grave aconteceu?” – Não parecia ser urgente, então acho que você pode tomar o seu café e telefonar assim que terminar.

– O.K.

– À noite iremos à casa de sua tia Chiara – lembrou-me a minha mãe. – Ela decidiu fazer a ceia de Natal este ano em sua casa.

Droga!

Era o segundo ano consecutivo que a ceia de Natal não era feita em nossa casa. Eu gostava de quando éramos os anfitriões da família. Desde que tia Chiara reformou a sacada e construiu uma piscina no quintal, todos se reuniam lá e assistiam à queima de fogos de artifício atrás da casa.

– A que horas vocês planejam ir para lá? – perguntei, tomando um pouco de vitaminas.

– Por volta das oito horas da noite – respondeu a minha mãe.

– Ótimo, porque eu vou à casa da Thaís mais tarde. Hoje é o dia do nosso amigo secreto.

Há quatro anos, em todos os finais de ano, eu e alguns amigos nos reuníamos para uma troca de presentes. Como é de conhecimento geral, cada nome dos participantes é escrito num pedaço de papel, que, em seguida, é dobrado e misturado aos outros nomes. Cada um escolhe um pedaço e descobre qual é o seu amigo secreto. Apesar de o propósito do jogo ser não revelar aos demais quem é o seu escolhido, todos nós já sabíamos quem escolheu quem. A grande surpresa, então, seria o que cada um comprou para seu amigo secreto.

– Você já comprou o seu presente? – perguntou a minha mãe.

– Já. Foram 27 reais e 90 centavos gastos muito bem.

Não havia limite de preços para o presente, desde que este não fosse uma caixa de chocolates ou um produto de higiene como um sabonete – este havia sido o presente que ganhei do Matheus no ano passado.

Terminei o café da manhã e andei até o banheiro, a fim de tomar um banho e colocar uma roupa para sair.

Assim que estava pronto, desci a escada e me lembrei de ligar para Marina. Fui até a sala de estar, onde ficava o telefone sem fio. Disquei um número.

– Alô – disse a voz do outro lado da linha.

– Marina?

– Aqui é a mãe dela. Quem fala, por favor?

– Er... Rosa, aqui é Guilherme. Marina está?

– Sim, vou chamá-la.

– Tudo bem.

Ouvi Rosa gritando o nome de Marina. Ela era uma mulher que precisava diariamente tomar suco de maracujá.

Esperei.

Enfim, Marina falou.

– Guiga?

– Oi, Marina. Meu pai disse que você havia telefonado mais cedo.

– Sim. Eu queria saber se você está a fim de dar uma volta comigo por aí. – Eu não gostava de ser convidado por uma mulher para sair. Era como se os papéis houvessem sido invertidos. Preferia que eu a convidasse. Isso me deixaria no controle da situação. – Queria conversar com você.

Eu já conseguia imaginar sobre o que iríamos conversar. Duas semanas atrás, eu e Marina começamos a... ficar. Talvez isso soe um tanto piegas, mas foi ela quem eu beijei pela primeira vez.

Nós nos conhecemos na escola há quatro anos, quando tínhamos 11 anos. Ela era a aluna novata da turma naquele ano e, no primeiro dia de aula, sentou-se ao meu lado.

– Classe – começou a sra. Figueiredo –, nós temos uma nova aluna na nossa turma. Quero que todos deem boas-vindas à Marina. – Ela levantou o braço e apontou para a menina de cabelos negros no fim da sala.

Até parece que a sra. Figueiredo era uma pessoa receptiva. Eu tinha certeza de que dentro daquele corpo roliço e enrugado, que lembrava uma daquelas senhoras de idade que passavam o dia sentadas em frente às suas casas fofocando sobre os vizinhos, havia uma seguidora das Trevas pronta para injetar um veneno letal em suas veias.

Todos se viraram para a aluna-sensação da vez da classe e, em coro, disseram: – Bem-vinda, Marina.

A sra. Figueiredo não deu chances para que Marina agradecesse e continuou.

– Então, Marina, gostaria de nos contar um pouco sobre você?

As bochechas de Marina mudaram de tom e ela afundou na cadeira. Percebi, então, que não era de seu desejo começar a contar qualquer coisa sobre si. Entretanto, ela se levantou e começou a falar rapidamente.

– Bem – começou Marina –, antes de vir para cá, eu morava na capital. Eu e meus pais nos mudamos porque meu pai, que trabalha num banco, foi transferido para cá.

– E você está gostando da nossa cidade?

– Sim.

Esse “sim”, acredito, veio acompanhado de um pensamento como “agora, por favor, pare de me fazer perguntas”.

Por um instante, achei que a sra. Figueiredo houvesse lido a mente de Marina, porque ela decidiu que era hora de parar com as apresentações e começar de vez a aula de matemática.

– Bem, mais uma vez, seja bem vinda à nossa cidade e à nossa escola, Marina.

A sra. Figueiredo tirou a sua máscara de boa recepcionista e retornou ao seu estado de espírito normal. Começou a fazer algumas anotações no quadro, algo sobre sistema de numeração decimal. Matemática não era a minha melhor matéria.

Eu olhei para Marina, que retribuiu o olhar. Tímido, sorri para ela.

– Oi, eu sou Guilherme.

– Oi – ela disse, também tímida.

A nossa conversa foi interrompida pelo olhar furioso e matador da sra. Figueiredo.

– Caso não tenham percebido, a aula já começou e conversas não são permitidas! Mais uma desobediência e terei de separar vocês dois, sr. Lustosa e srta. Brandão.

Acabamos nos rendendo à sua ameaça.

Após várias tentativas frustradas de prestar atenção às aulas, o sinal, tocou.

Intervalo, finalmente.

Era a minha chance de poder conversar com Marina, conhecê-la melhor. Enquanto todos se levantavam de suas cadeiras e saíam da sala rumo ao refeitório, eu caminhei em direção à aluna novata.

– Oi. De novo.

Ela se limitou a levantar o rosto e sorrir.

Eu continuei.

– Você já conhece alguém por aqui?

– Não, ainda não.

– Hum. Quer lanchar comigo? Assim eu posso lhe mostrar o colégio e apresentar você aos meus amigos.

– Claro.

Não foi difícil me tornar amigo de Marina. Ela falava demais. Em cinco minutos, era como se já fôssemos conhecidos de longa data.

Na época, achava que ela significaria horas de conversas às quais eu apenas balançaria a cabeça, concordando com tudo o que falasse. Hoje, sei que ela significa muito, muito mais.


– Tudo bem. Quer que eu passe aí para te buscar? – Pelo menos isso teria de ser feito por mim. Eu não entraria no carro da mãe dela. Se você acha que isso é frescura ou machismo, bingo.

– Na verdade, eu pensei em nos encontrarmos na praça central. O que você acha?

– Ótimo. A que horas?

– Às duas.

– Tudo bem. Até lá, então.

– Tchau. – Nós fizemos um acordo: não diríamos “eu te amo” um ao outro e não nos chamaríamos por “fofinho”, “lindinho”, “amorzinho” ou qualquer apelido-adjetivo do gênero, principalmente usando o diminutivo. Por duas razões: a primeira, porque ainda não estávamos oficialmente namorando; a segunda, porque ambos concordávamos que esses tipos de nomes eram bregas.


Marina estava sentada num dos bancos que compunham a praça central da cidade. Era um local arborizado, com alguns altos postes e um coreto bem no centro. Crianças pedalavam suas bicicletas. Uma delas, eu acho, não viu uma pequena rachadura. O chão, pelo menos, aparou sua queda.

– Marina! – chamei, saindo do carro do meu pai.

Ela me viu e se levantou. Correu para me abraçar, numa cena que lembrava os finais de filmes românticos em que a mocinha finalmente encontra seu amado.

– Guiga! – disse ela, me abraçando e me beijando.

Eu não sou a melhor pessoa para descrever um beijo. E também acho que não pegaria bem começar a falar do que senti quando os lábios de Marina tocaram os meus.

– Feliz Natal – disse eu.

Ela sorriu. Cara, aquilo era impressionante. O sorriso de Marina conseguia regredir a minha idade. Quando ela fazia aquilo, eu me sentia um bebê em frente a um brinquedo novo e barulhento.

– E então, já comprou o presente para o amigo secreto? – perguntei.

– Na verdade, não. Queria que me ajudasse a comprar algo para o Bruno. – Ele era seu amigo secreto. – Foi exatamente para isso que chamei você.

Achei que você havia me chamado para falar da nossa situação, não de presentes. Para isso existe a Amanda.

Estava começando a me sentir usado.

Mas pude ver em seus olhos que ela estava apenas tentando adiar essa conversa. Ou talvez ela quisesse que eu começasse.

O problema é que eu não queria começar. Não sabia como.

– Claro, vou ajudar – disse, sem ânimo algum.

Ela realmente precisava da minha ajuda para escolher algo para Bruno? Era tão óbvio quanto saber que dois mais dois são quatro.

Definitivamente ela estava tentando jogar o abacaxi em minhas mãos.

Não percebi que já estávamos caminhando pela praça, andando em direção à loja de CDs e DVDs do sr. Arcoverde.

Ela suspirou.

– Você está tensa – comecei. – É alguma coisa sobre nós? – Ser sutil não era a minha maior nem melhor habilidade.

– Na verdade, é – disse ela.

Bem, ao menos funcionou.

– Pode falar.

– Então – ela parou, procurando as palavras. – Duas semanas. Já é tempo suficiente para decidir se a gente oficializa ou para por aqui.

– Marina, eu amo você. Gosto de estar ao seu lado. Sabe que você me faz bem. É claro que eu quero continuar.

Hum, nada mal, Guilherme.

– Sério?! – ela gritou histérica, como se a minha resposta fosse algo totalmente inesperado. Ela pulou em mim, envolvendo seus braços por cima de meus ombros. E me beijou.

Eu me senti tão bem, como se não houvesse chão. Aquela não era a maneira mais comum de se consolidar um namoro, mas eu não poderia pedir de outro jeito. Estávamos juntos. Oficialmente.

Percebi que havíamos entrado na loja do sr. Arcoverde.

– Você não me ligou para comprarmos um presente para o Bruno, ligou? – perguntei, sem conseguir conter um riso.

– Não – disse ela, voltando a me beijar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Primeiro post

Em breve, postarei o primeiro capítulo de Efeito. Beijos *: