Os raios de sol atravessavam a vidraça da janela do meu quarto e incidiam exatamente em meus olhos. Tentei não abri-los, mas fui derrotado pela luz alaranjada do amanhecer. Passaram-se quase cinco minutos até eu encontrar forças para me levantar e caminhar até a cozinha.
Desci a escada e vi uma árvore decorada com bolas espelhadas, minúsculas lâmpadas e uma estrela no topo encostada no canto da sala. Por um breve instante, esqueci-me de que dia era aquele.
É véspera de Natal.
Dentre todos os eventos do ano, o Natal e o Ano-Novo eram os únicos que conseguiam me deixar um pouco mais feliz do que o normal. Não que eu fosse uma pessoa infeliz, mas eu não sentia o espírito dos outros acontecimentos do ano.
Cheguei à cozinha e encontrei meus pais sentados à mesa.
– Oi, pai. Oi, mãe – eu disse, tirando a remela dos olhos e me sentando à mesa.
Havia o café da manhã de sempre: vitaminas ainda no liquidificador, alguns sanduíches, pães e frutas.
– Oi, Gui – responderam ao mesmo tempo. Eu não gostava muito desse apelido, muito menos de como os meus amigos me chamavam: Guiga. Mas não me importava mais, pois sabia que esses apelidos eram necessários, uma vez que “Guilherme” era um nome um tanto grande.
– Marina telefonou – disse-me o meu pai, ainda com um pedaço de pão na boca – Pediu para que você ligasse para ela assim que acordasse. – Ele deve ter percebido a minha cara de “será que algo grave aconteceu?” – Não parecia ser urgente, então acho que você pode tomar o seu café e telefonar assim que terminar.
– O.K.
– À noite iremos à casa de sua tia Chiara – lembrou-me a minha mãe. – Ela decidiu fazer a ceia de Natal este ano em sua casa.
Droga!
Era o segundo ano consecutivo que a ceia de Natal não era feita em nossa casa. Eu gostava de quando éramos os anfitriões da família. Desde que tia Chiara reformou a sacada e construiu uma piscina no quintal, todos se reuniam lá e assistiam à queima de fogos de artifício atrás da casa.
– A que horas vocês planejam ir para lá? – perguntei, tomando um pouco de vitaminas.
– Por volta das oito horas da noite – respondeu a minha mãe.
– Ótimo, porque eu vou à casa da Thaís mais tarde. Hoje é o dia do nosso amigo secreto.
Há quatro anos, em todos os finais de ano, eu e alguns amigos nos reuníamos para uma troca de presentes. Como é de conhecimento geral, cada nome dos participantes é escrito num pedaço de papel, que, em seguida, é dobrado e misturado aos outros nomes. Cada um escolhe um pedaço e descobre qual é o seu amigo secreto. Apesar de o propósito do jogo ser não revelar aos demais quem é o seu escolhido, todos nós já sabíamos quem escolheu quem. A grande surpresa, então, seria o que cada um comprou para seu amigo secreto.
– Você já comprou o seu presente? – perguntou a minha mãe.
– Já. Foram 27 reais e 90 centavos gastos muito bem.
Não havia limite de preços para o presente, desde que este não fosse uma caixa de chocolates ou um produto de higiene como um sabonete – este havia sido o presente que ganhei do Matheus no ano passado.
Terminei o café da manhã e andei até o banheiro, a fim de tomar um banho e colocar uma roupa para sair.
Assim que estava pronto, desci a escada e me lembrei de ligar para Marina. Fui até a sala de estar, onde ficava o telefone sem fio. Disquei um número.
– Alô – disse a voz do outro lado da linha.
– Marina?
– Aqui é a mãe dela. Quem fala, por favor?
– Er... Rosa, aqui é Guilherme. Marina está?
– Sim, vou chamá-la.
– Tudo bem.
Ouvi Rosa gritando o nome de Marina. Ela era uma mulher que precisava diariamente tomar suco de maracujá.
Esperei.
Enfim, Marina falou.
– Guiga?
– Oi, Marina. Meu pai disse que você havia telefonado mais cedo.
– Sim. Eu queria saber se você está a fim de dar uma volta comigo por aí. – Eu não gostava de ser convidado por uma mulher para sair. Era como se os papéis houvessem sido invertidos. Preferia que eu a convidasse. Isso me deixaria no controle da situação. – Queria conversar com você.
Eu já conseguia imaginar sobre o que iríamos conversar. Duas semanas atrás, eu e Marina começamos a... ficar. Talvez isso soe um tanto piegas, mas foi ela quem eu beijei pela primeira vez.
Nós nos conhecemos na escola há quatro anos, quando tínhamos 11 anos. Ela era a aluna novata da turma naquele ano e, no primeiro dia de aula, sentou-se ao meu lado.
– Classe – começou a sra. Figueiredo –, nós temos uma nova aluna na nossa turma. Quero que todos deem boas-vindas à Marina. – Ela levantou o braço e apontou para a menina de cabelos negros no fim da sala.
Até parece que a sra. Figueiredo era uma pessoa receptiva. Eu tinha certeza de que dentro daquele corpo roliço e enrugado, que lembrava uma daquelas senhoras de idade que passavam o dia sentadas em frente às suas casas fofocando sobre os vizinhos, havia uma seguidora das Trevas pronta para injetar um veneno letal em suas veias.
Todos se viraram para a aluna-sensação da vez da classe e, em coro, disseram: – Bem-vinda, Marina.
A sra. Figueiredo não deu chances para que Marina agradecesse e continuou.
– Então, Marina, gostaria de nos contar um pouco sobre você?
As bochechas de Marina mudaram de tom e ela afundou na cadeira. Percebi, então, que não era de seu desejo começar a contar qualquer coisa sobre si. Entretanto, ela se levantou e começou a falar rapidamente.
– Bem – começou Marina –, antes de vir para cá, eu morava na capital. Eu e meus pais nos mudamos porque meu pai, que trabalha num banco, foi transferido para cá.
– E você está gostando da nossa cidade?
– Sim.
Esse “sim”, acredito, veio acompanhado de um pensamento como “agora, por favor, pare de me fazer perguntas”.
Por um instante, achei que a sra. Figueiredo houvesse lido a mente de Marina, porque ela decidiu que era hora de parar com as apresentações e começar de vez a aula de matemática.
– Bem, mais uma vez, seja bem vinda à nossa cidade e à nossa escola, Marina.
A sra. Figueiredo tirou a sua máscara de boa recepcionista e retornou ao seu estado de espírito normal. Começou a fazer algumas anotações no quadro, algo sobre sistema de numeração decimal. Matemática não era a minha melhor matéria.
Eu olhei para Marina, que retribuiu o olhar. Tímido, sorri para ela.
– Oi, eu sou Guilherme.
– Oi – ela disse, também tímida.
A nossa conversa foi interrompida pelo olhar furioso e matador da sra. Figueiredo.
– Caso não tenham percebido, a aula já começou e conversas não são permitidas! Mais uma desobediência e terei de separar vocês dois, sr. Lustosa e srta. Brandão.
Acabamos nos rendendo à sua ameaça.
Após várias tentativas frustradas de prestar atenção às aulas, o sinal, tocou.
Intervalo, finalmente.
Era a minha chance de poder conversar com Marina, conhecê-la melhor. Enquanto todos se levantavam de suas cadeiras e saíam da sala rumo ao refeitório, eu caminhei em direção à aluna novata.
– Oi. De novo.
Ela se limitou a levantar o rosto e sorrir.
Eu continuei.
– Você já conhece alguém por aqui?
– Não, ainda não.
– Hum. Quer lanchar comigo? Assim eu posso lhe mostrar o colégio e apresentar você aos meus amigos.
– Claro.
Não foi difícil me tornar amigo de Marina. Ela falava demais. Em cinco minutos, era como se já fôssemos conhecidos de longa data.
Na época, achava que ela significaria horas de conversas às quais eu apenas balançaria a cabeça, concordando com tudo o que falasse. Hoje, sei que ela significa muito, muito mais.
– Tudo bem. Quer que eu passe aí para te buscar? – Pelo menos isso teria de ser feito por mim. Eu não entraria no carro da mãe dela. Se você acha que isso é frescura ou machismo, bingo.
– Na verdade, eu pensei em nos encontrarmos na praça central. O que você acha?
– Ótimo. A que horas?
– Às duas.
– Tudo bem. Até lá, então.
– Tchau. – Nós fizemos um acordo: não diríamos “eu te amo” um ao outro e não nos chamaríamos por “fofinho”, “lindinho”, “amorzinho” ou qualquer apelido-adjetivo do gênero, principalmente usando o diminutivo. Por duas razões: a primeira, porque ainda não estávamos oficialmente namorando; a segunda, porque ambos concordávamos que esses tipos de nomes eram bregas.
Marina estava sentada num dos bancos que compunham a praça central da cidade. Era um local arborizado, com alguns altos postes e um coreto bem no centro. Crianças pedalavam suas bicicletas. Uma delas, eu acho, não viu uma pequena rachadura. O chão, pelo menos, aparou sua queda.
– Marina! – chamei, saindo do carro do meu pai.
Ela me viu e se levantou. Correu para me abraçar, numa cena que lembrava os finais de filmes românticos em que a mocinha finalmente encontra seu amado.
– Guiga! – disse ela, me abraçando e me beijando.
Eu não sou a melhor pessoa para descrever um beijo. E também acho que não pegaria bem começar a falar do que senti quando os lábios de Marina tocaram os meus.
– Feliz Natal – disse eu.
Ela sorriu. Cara, aquilo era impressionante. O sorriso de Marina conseguia regredir a minha idade. Quando ela fazia aquilo, eu me sentia um bebê em frente a um brinquedo novo e barulhento.
– E então, já comprou o presente para o amigo secreto? – perguntei.
– Na verdade, não. Queria que me ajudasse a comprar algo para o Bruno. – Ele era seu amigo secreto. – Foi exatamente para isso que chamei você.
Achei que você havia me chamado para falar da nossa situação, não de presentes. Para isso existe a Amanda.
Estava começando a me sentir usado.
Mas pude ver em seus olhos que ela estava apenas tentando adiar essa conversa. Ou talvez ela quisesse que eu começasse.
O problema é que eu não queria começar. Não sabia como.
– Claro, vou ajudar – disse, sem ânimo algum.
Ela realmente precisava da minha ajuda para escolher algo para Bruno? Era tão óbvio quanto saber que dois mais dois são quatro.
Definitivamente ela estava tentando jogar o abacaxi em minhas mãos.
Não percebi que já estávamos caminhando pela praça, andando em direção à loja de CDs e DVDs do sr. Arcoverde.
Ela suspirou.
– Você está tensa – comecei. – É alguma coisa sobre nós? – Ser sutil não era a minha maior nem melhor habilidade.
– Na verdade, é – disse ela.
Bem, ao menos funcionou.
– Pode falar.
– Então – ela parou, procurando as palavras. – Duas semanas. Já é tempo suficiente para decidir se a gente oficializa ou para por aqui.
– Marina, eu amo você. Gosto de estar ao seu lado. Sabe que você me faz bem. É claro que eu quero continuar.
Hum, nada mal, Guilherme.
– Sério?! – ela gritou histérica, como se a minha resposta fosse algo totalmente inesperado. Ela pulou em mim, envolvendo seus braços por cima de meus ombros. E me beijou.
Eu me senti tão bem, como se não houvesse chão. Aquela não era a maneira mais comum de se consolidar um namoro, mas eu não poderia pedir de outro jeito. Estávamos juntos. Oficialmente.
Percebi que havíamos entrado na loja do sr. Arcoverde.
– Você não me ligou para comprarmos um presente para o Bruno, ligou? – perguntei, sem conseguir conter um riso.
– Não – disse ela, voltando a me beijar.
Sendo absolutamente sincera, não gosto de puxar o saco das pessoas. Quando me mandam ler algo, eu sou crítica até a último ponto. Se eu gostar ou não gostar, eu falo mesmo.
ResponderExcluirEntão, acredite, a sua história está realmente muito boa. A gramática está impecável e a narrativa prendeu-me até o fim do capítulo.
Parabéns, Arthur. :)
Continue assim. Vou continuar lendo Efeito.
adoreeei sua história arthur, de verdade. você tem jeito pra coisa! <o//
ResponderExcluirparabéns!
e escreva logo os próximos pq estou curiosa! xD shaushuhaush
bjus =*
arthur aleluia esse capitulo, ja to esperando a seculos, uashuhasuhau, eu vo ser sincero, axei o capitulo mto bom, e pode dar uma otima estoria, apesar de nao gostar mto de estorias em primeira pessoa, essa conseguiu me preder e posta outro capitulo logo, aushaushaushau, e me passa, kkkkkkkkk, nao demora mto em.
ResponderExcluirArthur, adorei sua hist. tá ótima, o seu jeito de escrever também tá perfeito cara, amei amei mesmo *-*. Tem futuro. Parabéns :)
ResponderExcluirps.: é a Gabi, to na conta da minha prima kk
ARTUR BOTTENTUIT AQUI
ResponderExcluirArthur,eu vou ser sempre o mais sincero possível quando for comentar os capítulos de Efeito!
Bom,li o primeiro capítulo,e o que posso dizer é que está incrivelmente envolvente,muito bom mesmo! Leitura fácil e rápida,construção de forma equilibrada dos cenários das passagens.A única coisa que eu queria pontuar era a fonte do nome do livro,mude imediatamente! Efeito por um acaso faz parte da série crepúsculo? Criatividade na hora de fazer a estética do livro é muito importante!